domingo, 12 de janeiro de 2014

A CURA










                        “Nós devemos ser a mudança que queremos ver no  mundo”
                                                                (Mahatma Gandhi)

  



Antes de nos aprofundarmos em nossos estudos, alguns conceitos precisam ser novamente revistos; principalmente por estarmos no limiar de um novo tempo e desenvolvendo um novo modelo para o pensamento universal. Novas epistemologias elaboram formas de entender o mundo sem os dualismos que se ajustaram a mente humana como herança do paradigma científico que se estruturou a partir da renascença, entretanto, esses modelos sofreram abalos importantes, especialmente na pós-modernidade.

As partes deixaram de explicar o Todo, o pensamento sistêmico ganhou corpo e hoje o mundo passa por um processo de integração. Esse viés integrativo mostra-se presente em todo tecido social: as culturas se misturam, a tecnologia derrubou barreiras físicas, o tempo e o espaço estão no centro das grandes transformações do planeta e o pensamento contemporâneo caminha para um formato holístico.

A humanidade passou por guerras e revoluções, tanto sociais quanto culturais e algumas conquistas importantes no campo da liberdade de expressão ajudaram-na a não ter mais que ser ver forçada a terceirizar suas escolhas existenciais, muito menos as espirituais.

Em tempos de grandes transformações como esse, é natural que nos reposicionemos com novos conceitos, portanto, muitas perspectivas intocáveis do conhecimento humano passam por alterações bruscas.

Em nossa Apometria Integral, por exemplo, por tratar-se de uma terapêutica ajustada às demandas dessa nova era, adotamos uma nova visão para alguns conceitos consolidados de forma cristalizada no trânsito histórico, um deles está relacionado ao entendimento equivocado que se criou em torno do conceito “cura”.

Não tratamos a cura como o resultado de alguma ação invasiva, feita através de procedimentos médicos ou terapêuticos. como algo de fora para dentro. Particularmente, considero que não somos curandeiros, milagreiros, nem responsáveis pela cura de ninguém, apenas promovemos tratamentos, a cura definitiva de qualquer mazela física, mental ou emocional, irá cobrar mudanças na postura do interessado e exigirá uma nova projeção de sua própria consciência.

Não podemos nos esquecer que durante um tratamento qualquer, o assistido estará apresentando um quadro de desequilíbrio que apenas expressa a natureza das escolhas que ele mesmo fez, seja através das crenças, valores, modelos, orientações, enfim, qualquer estrutura mental equivocada, que através de seu livre arbítrio, foi sendo elaborada no transcorrer de sua história. Lembra uma aranha, que vive em teias que ela mesma teceu, substâncias do seu interior, portanto, não poderemos curá-lo, só ele poderá, através de novas proposições mudar o rumo da própria existência, com uma nova conduta. Enquanto ele insistir nos velhos vícios e na mesma postura, continuará sofrendo e reproduzindo distonias. Por isso, um trabalho apométrico sério, deve partir, sempre, do pressuposto que a prerrogativa da cura pertence ao assistido.

Temos muito claro em nossos grupos que o trabalho deve ser, acima de tudo, propositivo. Trabalhamos, portanto, como um pronto socorro, colocando o consulente em condições adequadas para depois darmos as orientações que trarão novas perspectivas para que ele possa seguir na elaboração de uma nova realidade, dentro de níveis mais equilibrados.

Esse modelo passivo, mecanicista, onde o terapeuta é o sujeito e o paciente o objeto, em nosso ponto de vista, deveria ser reformulado. É ainda uma visão atomista, superada pelos avanços de um novo paradigma científico que só não se estabeleceu, ainda, por culpa das resistências das estruturas conservadoras. Não podemos olhar o problema de forma tão reducionista, mecânica, trocando peças desgastadas, sem expandir o olhar para todo o sistema, sem buscar as causas da problemática, não podemos olvidar que todo desequilíbrio, de certa forma, foi psicossomatizado através de escolhas, que existe um princípio espiritual, não local, imprimindo suas particularidades naquele campo da matéria.

A cura, não pode ser algo que se resolva de forma tão cartesiana. Não podemos nos esquecer que até mesmo Jesus repetia sempre, “a tua fé te curou...”. O Mestre dizia isso como forma de mostrar que a cura depende, muito mais, da fé do doente do que de qualquer ação externa. Na realidade, ao envolver-se com energia amena e mansa do Cordeiro, o doente recebia um bálsamo de alívio imediato, era um tratamento de choque que servia para aliviar seu processo, porém, não deixava de ouvir a recomendação: “Vá e não peques mais”, mostrando que para livrar-se de uma nova queda e alcançar a cura definitiva, o doente deveria não pecar, ou seja, mudar o padrão equivocado do comportamento que resultou em seu desequilíbrio.

Santo Agostinho nos ensina que o pecado (peccatú) é um ato ou um desejo contrários à Lei Eterna, portanto, quando Jesus recomendava a seus doentes a não pecarem mais, alertava-os ao imperativo de enquadramento a tal Lei.

Todos os dissabores que colhemos em nossas vidas, algum dia foram semeados através de escolhas infelizes e fazem parte das provas que se apresentam na existência para nos tornar mais preparados, resilientes, fortes e capazes de assumir intendências maiores. Isso talvez explique a máxima: “Felizes os que sofrem”. 


Considero que Mestre queria nos mostrar que o sofrimento, dentro da dinâmica evolutiva, movimenta a estrutura humana em busca da transformação, portanto, é um mecanismo usado pelo Universo para desenvolvimento humano. 

Vale a pena refletirmos a cerca do exemplo de Jesus. A missão do Nazareno evidenciou-se pela resignação à dor, à injustiça e ao sofrimento extremo e humilhante ao qual foi exposto, justamente para nos mostrar que não podemos fugir das dificuldades e não devemos ter medo dos enfrentamentos e desafios que a vida nos impõe. Esse Espírito de luz aceitou uma missão sofrida para nos mostrar um caminho seguro e consolador. Segundo as escrituras, não fugiu ao seu destino, acabou morrendo da forma mais violenta possível. Enfrentou o percurso do Gólgota sob chicotadas e o escárnio popular, na condição de condenado para ser crucificado entre bandidos e aproveitou, até mesmo essa oportunidade, para nos ensinar o perdão.

Como se não bastasse o exemplo deste Espírito Ascenso que viveu entre nós, temos outras ocorrências históricas que merecem ser consideradas. Outros Avatares também trataram a questão do sofrimento, é o que encontramos nas “Quatro Nobre Verdades” postuladas por Sidharta Gautama, o Budha, - outra evidência dessa revelação que retrata o que existe de mais absoluto na condição humana: o sofrimento - O Sakyamuni alcançou a iluminação, após, anos de meditação e renúncia para poder trazer à humanidade os instrumentos adequados para lidarmos com essa verdade.

Jung, como um profundo estudioso da alma, também tratou deste assunto, e o fez com uma clareza assustadora:


“O homem tem de lutar com o problema do sofrimento. O oriental quer livrar-se do sofrimento, expulsando-o; o ocidental procura suprimi-lo com remédios. Mas o sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o. Aprendemos isso somente com ele (o cristo crucificado)”.



Vejam que a visão pós-moderna desse grande psicoterapeuta é similar à visão de grandes avatares como Jesus e Buda. O processo doloroso no qual um sofredor está inserido deverá ser entendido como um processo de cura, melhor dizendo, como a própria cura, por mais transgressora que possa parecer essa tese, pois, tal processo expressa um movimento de ajuste natural da consciência através do expurgo de conteúdos energéticos indesejáveis que se alojam nos porões do inconsciente e buscam ostensivamente e caminho da expressão. Além de servir como um eficiente expediente educativo, capaz de despertar a consciência para uma revisão de valores e colocar o ser em movimento, alinhando-se com os pressupostos evolutivos universais, fortalece o espírito para que se eleve acima dos problemas que o sufocam.

A cura, portanto, deve ser entendida dentro de uma perspectiva mais ampla. Só uma crença sólida, em que o interessado consiga mostrar predisposição à mudança, adotando uma nova postura, poderia corrigir a frequência de sua consciência e desta forma, fazê-lo sintonizar-se com coisas mais elevadas, construindo pontes para uma nova condição.

Qualquer necessitado só encontrará a cura mudando seus gostos, combatendo suas inclinações, mantendo-se vigilante e refazendo todos os modelos equivocados que o levaram ao desequilíbrio. Esse conjunto de procedimentos trará conquistas espirituais relevantes, pois são recursos que sempre estiveram à nossa disposição, mas a negligência, conjugada com a rebeldia, atributos de nossa condição imatura, sempre conspiraram contra esse alinhamento. Repetimos que, por isso, o Mestre dizia: “Vá e não peques mais.” Quando conseguir isso, o ser humano passará a não mais viver sob a ação imperiosa da própria ignorância, alimentando medos, ressentimentos e frustrações, alcançando assim, a suprema liberdade.

Quando o doente entra em sintonia como o bem encontra o que se relaciona com o bem e isso não é apenas um princípio hermético, mas uma Lógica Universal, porém, quando diminui a frequência dos pensamentos movido por emoções pesadas como a raiva, o medo, a inveja, etc. irá sintonizar com frequências similares, como o mesmo peso vibracional, e é justamente o que dizia o filósofo alemão, Friedrich Nietzsche: “Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você.”

A cura jamais virá de fora para dentro, não há ninguém capaz de curar ninguém, pois ela se articula dentro de uma dinâmica centrífuga, de dentro para fora. O que fazemos, o que a medicina faz, o que o psicólogo, o terapeuta, o pai-de-santo, o pastor e a grande maioria de pessoas bem intencionadas, predispostas a ajudar o próximo fazem é tratar e amenizar os efeitos desta comunicação que está em curso, entre a alma e o corpo, tendo como expectador a própria consciência. A importância do médico alopata para o tratamento de um doente é indiscutível, mas para a cura ela pode ser menor e menos decisiva do que a do professor.

Como disse anteriormente, toda manifestação vinda do nosso mundo interior traz em si algum tipo de energia. Sofremos porque algumas são mórbidas, geram desconforto, explodem através de catarses ou materializam-se no organismo, portanto, mesmo correndo o risco de estar sendo prolixo, devemos entender que expelimos nossas mazelas no corpo físico ou na estrutura psíquica quando recebemos o impacto dos registros inadequados da alma, pois, esses mesmos registros não servem ao nosso Bem Maior e precisam ser expressados e suportados, para que possam ser superados.

A doença é algo desagradável, desconfortável, mas deve ser assim mesmo, não poderíamos ser recompensados pelos nossos erros. As doenças são, portanto, o efeito de uma causa que não está no corpo, mas no inconsciente de onde emanam as culpas, frustrações, medos, desejos de vingança, enfim, resultam de problemas que foram varridos para debaixo do tapete da alma ao invés de serem enfrentados e hoje buscam uma forma de expressão.

Tudo isso ocorre por que esses conteúdos não se enquadram ao viés evolutivo do ser. São energias pesadas, ocorrências do nosso passado longínquo, de muitas encarnações, todo um volume que se transforma no verdadeiro fardo que carregamos sem entender.

Carl Gustav Jung nos disse que aquilo que não enfrentarmos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino. Podemos entender na visão Junguiana que as doenças são resultado da total displicência conosco, sofremos, simplesmente, por não enfrentarmos e resolvermos os nossos problemas. Talvez não contássemos com o fato de que eles continuariam vivos nos porões do nosso inconsciente; uma vez negligenciados, eles acabariam resultando em fatores indesejáveis que iriam reclamar uma solvência, seja através de patologias, transtornos, conflitos e acidentes ou qualquer outra forma de nos chamar a atenção. A doença, antes tida como desgraça, passa a ser, dentro dessa nova perspectiva, uma graça. Essa visão diferenciada de nossas dificuldades está em sintonia com os ensinamentos de Paulo, o apóstolo dos Gentios: “Em tudo dai graças, porque é a vontade de Deus em Cristo para convosco” (I Tess. 5.18).

Uma outra recomendação de Jesus é, justamente, não darmos pérolas aos porcos, revelando que nem todos estão prontos e receptivos para qualquer ação terapêutica. Nem todos podem ser esclarecidos, posto que não se desarmaram suficientemente de seus conceitos endurecidos; vivem, ainda, como escravos, seguindo modelos rançosos de conduta que são alimentados pelo orgulho e pela vaidade e são nutridos pela ignorância. Expressam uma profunda letargia, seguem ostentando crenças ilusórias que lhes dão segurança e, das quais, ainda não conseguiram se desvincular. São seres imaturos, que não reúnem recursos para mudanças mais significativas e vivem de forma passiva, recebendo as impressões externas e registrando, como tábulas rasas, o influxo de fora. Como se vivessem, apenas, sob a égide do primeiro gênero de conhecimento da epistemologia de Spinoza.

Nossa Apometria Integral trata, explica, ilumina, orienta e até mesmo funciona como um instrumento educativo, tendo em vista o conjunto de revelações alcançadas pelos assistidos, porém, o sucesso desse tratamento depende dele. Nosso papel é, antes de tudo, o de educadores, não temos poderes dentro de ninguém, isso iria contrariar o livre arbítrio. Seremos apenas mediadores de uma compreensão mais ampla e sistêmica do quadro problemático de um consulente, ou seja, faremos com que a sua consciência se expanda para que o problema fique pequeno, por isso, usamos técnicas regressivas, damos orientações, entramos nas constelações psíquicas e revelamos as causas das mazelas que desequilibram o consultado. As ações de ajuste de postura e assimilações de novos valores que promoverão uma reprogramação mental e emocional dependerão dele, da força e coragem que ele deverá encontrar para dar um novo rumo a sua vida.



Paulo Tavares





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