quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O argueiro e trave no olho

 




“Por que vês tu, pois, o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu olho? Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do teu olho o argueiro, quando tens no teu uma trave? Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão”.    (M 8,3-5)


Há no homem um mecanismo de defesa onde o sujeito expulsa de si sentimentos, qualidades, desejos e inclinações que não aceita possuir e desta forma passa a identificar nos outros os mesmos elementos que esconde e  despreza (em si). Conhecido como projeção, esse termo explica por que encontramos tantos “defeitos” nos outros, por que razão nos sentimos agredidos com o comportamento alheio e gostamos de patrulhar e evidenciar a postura reprovável de alguém. Na verdade, é uma forma de nos convencermos de que somos diferentes, ou não temos a mesma inclinação censurável com a qual nos deparamos no mundo externo, com isso, transferimos nossas fraquezas para o lado de fora, como se estivéssemos nos livrando de uma batata quente.
Todas as vezes que ouvirmos alguém reclamando do marido, dos filhos, do patrão, do sócio, do amigo, enfim, de qualquer um que provoque o seu desagrado, na realidade, ao reclamar, essa pessoa está apenas se confessando, revelando sua natureza mais íntima, mostrando para quem tiver ouvidos aquilo que existe de deficiente nela. Isso nos leva a seguinte conclusão: quando qualquer ocorrência externa nos provocar desconforto, é sinal de que estamos em ressonância com o problema, portanto, é um indício de que temos os mesmos problemas que denunciamos. Se uma pessoa identifica a inveja em outra, significa que existe nela a mesma propensão para o uso deste tipo de comportamento, por isso se irrita, na realidade, identifica no lado de fora o que existe em seu interior e não aceita, simplesmente por que vive em constante combate contra esse problema. Agimos assim de forma instintiva, inconsciente, pois o nosso ego trabalha no sentido de manter-se confortável, inerte, livre de aborrecimentos e contrariedades, portanto, com o apoio da mente, expulsa para fora de suas terras os invasores indesejáveis, manda-nos para o mundo que o cerca. Edmundo Husserl, através de sua fenomenologia, explica que quando nós, sujeitos, nos relacionamos com o objeto, existe toda uma contaminação particular de significados nessa ação, explica, de forma taxativa que na relação com o conhecimento não há fatos, apenas interpretações e apela para a necessidade de olharmos para as coisas de forma objetiva, ou seja, impedir que a mundo  sofra com a contaminação emocional e psíquica de nossa visão subjetiva.
O mestre Jesus, ao falar do assunto citando o exemplo do argueiro e da trave, queria alertar a humanidade para esse comportamento recorrente nas relações humanas, pois, está cada vez mais claro que transformamos o mundo em um espelho e envolvemos todas as coisas e pessoas com o nosso programa emocional, tudo ficou subjetivo. Uma flor amarela na campina pode representar algo de extrema importância para alguns e apenas uma informação irrelevante para outros. A flor é a mesma, mas provoca em seus observadores, muitas vezes, impressões absolutamente distintas. Quem dá significado ao objeto é o observador. Por isso o Mestre Jesus nos disse que deveríamos, primeiro, retirar a “trave” do nosso olho, ou seja, refazer o programa emocional vulnerável que se ofende com os eventos do exterior, para depois, com uma visão mais clara do mundo, livre da contaminação das nossas crenças, valores e modelos distorcidos de “perfeição”, avaliarmos de forma isenta, racional e equilibrada, qual seria a melhor forma de ajudar aquele que está com um argueiro no olho.
O Nazareno, em uma das passagens mais lindas e brilhantes do evangelho, após salvar a vida da mulher adúltera, disse aos fariseus: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15). Julgar segundo a carne é julgar segundo o padrão humano, de acordo com os valores instáveis das convenções sociais e mundanas. Um padrão formado por nossas projeções, ou seja, pela projeção da própria humanidade. Percebam que os escribas e fariseus se horrorizaram com os atos pecaminosos da mulher, ficaram tão transtornados que queriam apedrejá-la, como forma de restabelecer a moral abalada. Se ofendiam, justamente, por trazerem dentro de si a mesma inclinação pecaminosa, ou seja, apenas mais um exemplo daquilo que chamamos de projeção. Tanto é verdade que o Mestre, sabendo disso, pediu que atirasse a primeira pedra aquele que estivesse sem pecado e foi, justamente, nesse momento que eles acordaram. Assim que voltaram os olhos para dentro de si, perceberam o tamanho da “trave” que traziam na alma, soltaram as pedras e partiram.
Assim como projetamos as nossas mazelas no mundo (espelho), também temos o mesmo comportamento projetivo diante de um relacionamento amoroso em que nos encontramos envolvidos pela paixão. Trazemos na alma, talvez, a estranha convicção de que somos feitos em pares, como no Mito dos Andróginos  de Platão: seres que foram separados por Zeus e condenados a viver em busca da outra metade perdida. Vivemos em busca dessa metade. Na realidade, buscamos alguem que represente ou sintonize com o lado obscuro do nosso ser, justamente, a instância desconhecida da alma que busca uma ressonância com o mundo externo. Ambicionamos encontrar uma pessoa que aceite o influxo dessa nossa natureza ignorada. Procuramos alguém que entre em ressonância com as nossas necessidades de expressão. Segundo Robert A. Johnson (2009), o amor romântico representa um jogo de interesses em que o homem projeta o seu lado feminino na mulher e a mulher projeta o seu lado masculino no homem, ou seja, um encontro com as nossa metades cindidas, por isso, quando estamos apaixonados nos sentimos maiores, completos, mais poderosos e felizes, da mesma forma, quando a paixão acaba - normalmente a perda do combustível afetivo acontece primeiro com um dos lados - é como se fôssemos amputados, como se, de fato, algum Zeus estivesse nos separando de uma parte que nos fazia inteiros.
Tudo isso nos leva a uma indagação: será que encontraremos a nossa metade através da conquista de uma suposta alma gêmea perdida? Será que a realização da nossa consciência integral, ou como quer Jung, a nossa individuação, que não é nada mais que a assimilação dos os conteúdos dissonantes do inconsciente, se dará através do encontro da pessoa amada? Tudo indica que não, pois parece improvável que exista alguma paixão que dure toda uma existência e o que vemos é que em poucos anos, às vezes, meses, esse combustível afetivo se esgota e tudo aquilo que foi projetado para fora, no outro, retorna à sua fonte. Quando Jung afirmava: “Prefiro ser inteiro a ser bom”, na realidade, já alertava para o fato de que já temos tudo dentro de nós, porém, são raros os casos de pessoas que direcionam a consciência na direção da própria sombra buscando expandir a consciência de si e agindo na transformação e assimilação do produtos do inconsciente. Ainda vivemos como um hermafrodita amputado em busca de sua metade, porém, não percebemos que a outra metade não está do lado de fora e sim em nosso mundo interior.
Não deveríamos colocar sobre os ombros de ninguém a responsabilidade de nos fazer feliz, isso é próprio da nossa condição infantil, mimada, próprio de uma natureza frágil e desorientada. Na verdade, é algo que denuncia a profunda influência do campo emocional em nosso comportamento. Os relacionamentos apaixonados expressam um profundo desprezo pela razão e isso é natural em nossa condição evolutiva, porém, não é menos certo que sofreremos a consequência de nossas escolhas apressadas e irrefletidas. Ao nos unirmos às pessoas, apenas, pela aparência, pela vaidade, pelos interesses materiais e terrenos, não nos damos conta do tamanho do equívoco que cometemos.
Há vários tipos de projeção, mas a pior de todas é a projeção negativa. Nos livramos de tudo aquilo que julgamos desagradável e difícil de encarar, jogando sobre os outros. Por estarmos, na maioria das vezes, inconscientes dessa dinâmica, Identificamos ao nosso redor aquilo que escondemos em nosso interior e transferimos essas inadequações para esse lado de fora no momento em que julgamos, criticamos, anatematizamos e nos deixamos abater pela informação dos eventos externos. Denunciamos e levamos à julgamento aqueles que nos desagradam, sem perceber que estamos denunciando nós mesmos.
Na realidade, temos que concordar com a autora Anaïs Nin: “as coisas não são como são! São como somos!”.



Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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