Bem e mal



   




O mundo, infelizmente, ainda se orienta por essa dicotomia: bem e mal. Vivemos em um eterno campo de batalhas contra o mal. Evitamos e retiramos do nosso meio tudo aquilo que consideramos inaceitável, que não se enquadra em nossos moldes sociais, e fazemos isso,quase sempre com repúdio e violência. Tratamos esses elementos como representações do mal e preservamos o bem com todos os recursos possíveis. O detalhe é que consideramos como bom apenas aquilo que está em sintonia com a nossa visão de mundo, pois agimos conduzidos por um programa de valores e crenças elaborado com princípios dualistas. Vivemos submersos em conflitos e orientados por modelos e regras morais ancestrais que se consolidaram em nossa consciência por influência das forças que sempre se impuseram com veemência sobre a humanidade. Forças politicas, religiosas, filosóficas e, até mesmo, científicas. 

Nada obstante vivermos em um tempo de integração, de consciência ecológica e estarmos desenvolvendo, ainda que muito lentamente, um modelo de pensamento holístico, graças aos avanços da física quântica, temos até agora, enormes dificuldades em expandir a consciência acima do evento, olhar o "Todo". Sofremos para expandir essa visão, compreender o sistema e tratar as diversidades como partes de um mesmo organismo. Ainda pensamos em termos de partículas e não de ondas. Não conseguimos superar o preconceito e a desconsideração que utilizamos contra tudo aquilo que não se ajusta ao nosso modo de enxergar o mundo. 

Apenas para exemplificar: um jovem infrator representa para nós um problema em si, algo ameaçador, preocupante, tanto que quando o avaliamos, nós nos esquecemos de considerar causas importantes, como o meio que o produziu, a formação e as oportunidades que ele recebeu em termos de valores morais e religiosos, etc. Achamos que prendê-lo resolverá o problema, mas não resolve, o sistema produzirá outro em seu lugar, pois o sistema não foi enfrentado e a maquina continua em funcionamento. Não nos conscientizamos, portanto, que o problema é sistêmico, que apenas pensando de forma orgânica, chegaremos a algum lugar. Não caiu a ficha, ainda, que toda violência, por força dos campos eletromagnéticos, acabará retornando para o seu emissor. É simplesmente o postulado cristão de pagar o mal com o bem a única possibilidade de resolver essa complicada equação.

Infelizmente nossa visão é estreita, só conseguimos enxergar a fruta podre, aquilo que deve ser tratado com desprezo, não percebemos que, nesse caso, estamos diante da ponta de um iceberg que guarda sua maior substância abaixo da superfície. Vivemos a ainda a ilusão da separação, tratando de forma mecanicista questões que só poderão ser resolvidas de forma integrativa.

Em nossa atual condição entendemos que é muito mais fácil continuar culpando e condenando tudo e todos do que tentar buscar a causa e conhecer o processo que está produzindo tal distonia. Seguimos orientados pelo vício atávico de emitir julgamentos sucessivos e pedimos o apedrejamento ao criminoso com a mesma voracidade de sempre. Acreditamos que estaremos resolvendo o problema agindo desta forma beligerante e combativa, assim, defendemos a tese de que este comportamento é o que melhor se ajusta ao exercício da nossa cidadania. 

Continuamos agindo como paladinos da moral e da ética, prendendo e em alguns casos executando todos os transgressores da mesma forma que queimávamos bruxas e enforcávamos criminosos. Consideramos que nossas ações são as mais corretas e com isso, infelizmente, não percebemos que estamos apenas enxugando gelo. Não nos demos conta de que o problema que se apresenta é fruto de um sistema muito mais amplo e complexo que, via de regra, irá abastecer o meio com outro transgressor da mesma magnitude, talvez maior e mais perigoso, portanto, deveríamos trabalhar na transformação do sistema. 

O médico extrai com toda destreza e muito conhecimento um câncer, mas há aquele que não se deu conta que o tumor tende a retornar se não houver uma mudança significativa no sistema que o produziu, ou seja, se o paciente não modificar o comportamento vicioso, não fizer uma mudança em seu programa emocional, não rever a postura, não mudar os costumes, não adotar uma nova atitude diante da vida, não se perdoar, enfim, se não fizer algo que atue no processo, o problema não estará definitivamente resolvido. Se ainda existir no campo emocional resíduos do mesmo sentimento mórbido que provocou a doença, haverá uma metástase, ou seja, o tumor se reapresentará. 

Esses ajustes passam pela educação, pela organização, pelo amadurecimento, por reformas constitucionais, pelo desenvolvimento de um nova consciência que não seja beligerante, combativa, que atue no arcabouço do problema ao invés de se envolver com os efeitos.

O mal é aquele inimigo que constituímos no movimento da história, a partir das sensações desagradáveis e ameaçadoras, criado por nossos medos, fruto da nossa ignorância e merece ser estudado e passar por um processo de despontencialização. É preciso nos aprofundarmos na compreensão deste tema que é absolutamente transversal. Dentro da perspectiva humana, o entendimento desta questão sempre foi distorcido, especialmente para o homem ocidental que foi influenciado pelo modelo judaico-cristão onde o mal é visto como uma entidade a parte, antagônica, como um grande inimigo, diferente, por exemplo, da cosmovisão Hindu.

A figura de Jó, por exemplo, provoca reflexões interessantes, pois expõe de modo inequívoco a frágil condição humana diante de uma inexplicável crueldade divina. Passando por provações terríveis, Jó é obrigado a suplicar a Deus que o proteja deste mesmo Deus, pois é Javé quem está testando a sua fidelidade permitindo que Satanás destrua tudo aquilo que ele possui, inclusive a saúde. Onde está o mal nessa história? O que é o mal neste texto antigo? De acordo com a lógica, Javé seria o mal, tendo em conta que Satanás, o suposto adversário, só agiu com a sua concessão, ou seja, apenas cumpre o seu papel nesse jogo cósmico. 

Esse texto bíblico de origem desconhecida, escrito a cerca de duzentos anos antes dos Provérbios, mais ou menos na época de Esaú e Moisés, mostra que o sofrimento, a dor, as dificuldades, na realidade, tem uma origem divina, portanto não podemos tratá-los como algo mal. A grande lição desse mito é justamente o da confiança, da paciência e da resignação quem temos de ter diante do sofrimento. Jó, assim como perdeu tudo que tinha de mais precioso, foi restituído com muito mais, recebeu em dobro aquilo que perdera durante as suas provações.

Para o profeta persa Mani, o criador do maniqueísmo, a matéria é intrinsecamente má e o espírito intrinsecamente bom e esse pensamento influenciou profundamente muitos pensadores. Descartes seguiu essa linha separando o res cogitans (pensamento) da res extensa (matéria) e esse modelo de pensamento ganhou força na idade moderna. Contrário ao pensamento cartesiano (de Descartes), iremos encontrar na visão do filósofo Spinosa, um entendimento mais próximo da visão oriental (especialmente do Advaita Vedanta), ou seja, uma perspectiva holística, onde pensador considera que as partes não conseguem explicar o todo; é como se o pensamento começasse a ensaiar uma possibilidade de integração. Para ele o mal é uma ilusão, pois tudo faz parte da mesma natureza, deve ser estudado como um conjunto, orgânico e sistêmico. O homem não consegue entender que existe um Todo harmonioso, necessário e perfeito. A Doutrina Espírita, nada obstante expressar o mesmo viés cartesiano, consegue tratar o tema de uma bela forma, dizendo que o mal é o remédio, portanto, está envolvido com os alinhamentos da própria natureza.

A humanidade, aos poucos, começa a alcançar uma compreensão mais profunda da sua realidade. Percebe que a vida se expressa constrangida por Leis Naturais e que essa dinâmica atua a seu favor. Começa a entender que traz em si uma Essência Divina em processo de gestação e já aceita que esse processo se desenvolve através de desconfortos que são naturais, como os de um parto que lhe trará a luz. Entretanto, justamente diante da dor acaba por rotular o mal.

Ainda, com todas as possibilidades de renovarmos os paradigmas dualistas, existe, de forma persistente, um entendimento comum acerca daquilo que não é adequado ao homem e essas inadequações são combatidas como se fossem suas adversárias em um campo de batalhas. A humanidade, em sua grande maioria, não percebe que onde ele enxerga o mal, na realidade é apenas a informação de algo que que não está desenvolvido em um nível desejado, ou seja, trata-se simplesmente de uma deficiência ou uma ausência. Não entende que o orgulho é apenas falta de humildade, que a vaidade aponta para a escassez de modéstia, que o egoismo expressa a carência de generosidade e desprendimento, que a violência denuncia ausência de bondade, indulgência, misericórdia, que onde não existe o amor existe o medo e esse princípio de luz e sombra é que dá cores ao Universo. O sujeito prosaico, cidadão mediano, não percebe que assim que desenvolver as virtudes que não desenvolveu ainda, os seus vícios mentais que são tratados como representações do mal, deixam de existir. Não existe orgulho onde existe humildade, aliás, ninguém consegue humilhar uma pessoa humilde, só é possível humilhar uma pessoa orgulhosa. Buda, finalmente, resolve essa questão preconizando que o conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância.

Ninguém terá sucesso na luta contra os seus “defeitos”. Primeiro que não temos defeitos, temos deficiências e necessidades evolutivas, portanto não somos imperfeitos. Segundo que se dermos importância e notoriedade as nossas fraquezas, elas persistirão e ganharão força. Vivemos de acordo com a nossa idade astral e a Lei de Sociedade nos coloca entre irmãos menos e mais evoluídos para que possamos aprender e ensinar através da convivência. Jesus nos disse “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48), ora, se Deus é perfeito e nos criou, não poderia criar algo imperfeito, senão não seria Deus e nem seria perfeito, pelo menos é o que a razão nos convida a afirmar. Rousseau tentou melhorar as coisas dizendo que nós somos perfectíveis, talvez seja menos errôneo do que afirmarmos que somos imperfeitos. Não podemos dizer a uma criança que ela é imperfeita por não saber andar , não conhecer trigonometria, não saber o que é dialética e assim por diante. Desta forma, não podemos cometer esse mesmo erro conosco, porque ninguém é capaz de gostar de algo imperfeito, ninguém é capaz de amar a si mesmo, como nos recomenda o Mestre Jesus, alimentando essa crença equivocada, afinal, como gostar de algo com defeitos.

Quando o mestre Jesus nos convida a pagar o mal com o bem, na realidade demonstra que a única força transformadora do universo é o amor. Precisamos nos desarmar, deixarmos o campo de batalhas da existência, aceitar e compreender a diversidade que nos envolve e saber que não existem injustiças por mais revoltante que possa estar se apresentando uma situação. É evidente que ainda estamos bem distantes de nos comportarmos friamente diante de situações que nos deixam desconfortáveis e indignados, pois ainda somos dirigidos por emoções e não conseguimos nos convencer de que todo evento, por mais agressivo ou repugnante que possa estar se apresentando, será apenas experiência e informação, não conseguimos ultrapassar as fronteiras do acontecimento. Não conseguimos entender que, para o espírito, as ocorrências mundanas são apenas enredos de dramas teatrais, enfim, situações necessárias para exercitar o nosso desapego. Um dia alcançaremos condições conscienciais (não emocionais) de oferecermos a outra face, de não emitir julgamentos, de aceitar as diferenças, etc. Por enquanto, só nos cabe criar leis que nos protejam, principalmente, de nós mesmos.



Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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