O desânimo de Arjuna


          



Bhagavad-Gita (em sânscrito: भगवद्गीता, transl. Bhagavad Gītā, "Canção de Deus") é um texto hindu que faz parte do épico Mahabárata, muito embora seja de composição mais recente. O Mahabárata é datado no Século IV a.C.. O texto, escrito em sânscrito, relata um longo diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vishnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalhas de Kuru-kshetra. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever, um ser vivendo conflitos internos, justamente nos momentos que precedem o confronto. Quando esse guerreiro se encontra desanimado e sem forças para a luta, recebe conselhos e orientações diretamente do Senhor Krishna, seu preceptor. Arjuna foi traído por seus familiares, acabou impedido de assumir o trono e terminou sendo exilado. Ao perceber que muitos de seus amigos e entes queridos estavam presentes no campo do inimigo e despertar para a realidade que teria de enfrentá-los em um confronto, sentiu uma tristeza profunda, largou o arco e mostrou-se propenso a desistir completamente do combate. Arjuna precisava recuperar o seu reino e já havia reunido todo um contingente para essa ação, mas caiu em desânimo ao notar que as pessoas com as quais teria que lutar seriam seu próprio avô, seus primos, tios, irmãos, amigos de infância e até o seu professor. Sentimentos inferiores que promanam de uma alma escrava aos condicionamentos emocionais do mundo provocaram naquele guerreiro um profundo abatimento e, justamente, diante disso é que teve início um dos mais belos diálogos da história. Krishna aproveitou-se do ensejo e revelou toda uma Doutrina de luz em torno da Dinâmica Universal. O Senhor Krishna encoraja Arjuna a não desistir de realizar essa luta, pois os motivos que provocavam desânimo na alma daquele guerreiro vacilante estavam relacionados a um entendimento distorcido da dinâmica da existência. 

Que lições podemos retirar desses acontecimentos que aparentemente já falam por si? O Bhagavad Gita recebeu o status de livro sagrado em função de seu riquíssimo valor interpretativo, pois até os dias de hoje o evento narrado nestas escrituras segue sendo estudado e não são poucas as interpretações feitas em torno dos significados ocultos desses momentos de conflito de Arjuna no campo de batalha de Kuru-kshetra . Como em todos os livros sagrados, nessa história épica são encontrados alguns personagens que precisam ser identificados, justamente por entendermos que ela faz uma interessante analogia com a estrutura da alma humana. Na saga desta batalha envolvendo Kurus e Pandavas, surgem inúmeros personagens, cada um executando um papel que seria uma representação da nossa realidade interior. Se partimos do princípio que a narrativa poderia estar revelando nossa problemática e considerando que o homem, como referencial do texto, é formado por instâncias psíquicas diversas, como o ego, o self, a sombra e toda uma complexa variedade de personalidades vivendo no mesmo condomínio da alma, estaríamos diante de verdades profundas e universais, pois, considerando esses elementos, teríamos mais facilidade para entender as razões da batalha de kuru-kshetra e restaria apenas o trabalho de dar “nome aos bois”.

Arjuna, seria portanto, mais um herói diante de suas provações, uma representação do ser humano em busca de suas conquistas espirituais, um ser em evolução que precisaria enfrentar a própria sombra, que na história está representada pelos amigos e parentes presentes no campo inimigo - figuras com as quais apegou-se, justamente, por identificar-se com cada um deles. O arquétipo do herói está presente na obra d C. G. Jung como o protagonista no processo de individuação, ou seja, o herói irá centralizar todas as decisões que irão possibilitar a conquista de uma nova e melhor condição espiritual. Kuru kshetra, o campo de batalhas, seria o inconsciente. Esses adversários com os quais nos afeiçoamos, são representações de nossos complexos inferiores: nossos vícios, nossas inclinações, nossas fraquezas, enfim, todas os conteúdos emocionais que carregamos, que exercem grande influência sobre nós e com os quais permanecemos vinculados, justamente por nos sentirmos confortáveis com eles. As dificuldades que o homem encontra para livrar-se dos vícios, por exemplo, estão relacionadas ao triste fato de tê-los como companheiros, pois preenchem um vazio e servem de apoio em seu estágio de pouca elevação. Arjuna foi excluído de seu próprio reino e destituído de toda a sua realeza e é justamente isso que os nossos vícios fazem conosco: nos enfraquecem e depois nos escravizam, até que estejamos despojados de toda a nossa dignidade e nobreza. Nossos vícios desconsideram a nossa realeza, nos expulsam do nosso próprio castelo e nos fazem viver do lado de fora, a meio-fio, à espera de migalhas para sobrevivermos. 


Arjuna precisava recuperar o seu trono, para isso, precisava lutar, mas para enfrentar os seus inimigos deveria deixar os sentimentos do “eu inferior” de lado, livrar-se das muletas com as quais se agarrou no trânsito da vida, desfazer-se do apreço e compaixão que o escravizavam, vencer o apego que o enfraquecia, seria necessário matar cada um destes parentes e amigos interiores, estrangulá-los com as próprias mãos, sair da hipnose que o impedia de enxergar a realidade, vencer o entorpecimento provocado pela condição estática e confortável dos vícios e costumes. Mas como fazer isso estando completamente desanimado? 

Já sabemos que Arjuna, como personagem central, é a representação do herói, que poderíamos facilmente entender como o ego físico, mental e emocional, um representação, portanto, do “eu inferior”, enfim, a personalidade criada no processo encantatório para as conquistas e ajustes da alma, pois o ego é o centro de todos os processos psíquicos e todas as escolhas e conflitos convergem para ele. Sabemos, também, que os seus parentes presentes no campo inimigo representam os nossos vícios e deficiências e, portanto, seriam a representação do arquétipo da sombra e esse elemento do nosso psiquismo guarda uma relação promíscua com a consciência, pois amedronta ao mesmo tempo que oferece conforto. No inconsciente ela se articula como Duryôdhana, nos quer escravos, totalmente inertes, pois nos prendem às sensações prazerosas das ilusões que nutrem os nossos condicionamentos. 


Continuando nesse jogo de buscarmos os significados ocultos contidos nessa história e tentando encaixar as peças deste quebra-cabeças, ainda nos resta a seguinte pergunta: quem o Senhor Krishna poderia estar representando? Parece óbvio que Krishna seria o nosso Self, aquele que nos impulsiona para a senda da perfeição. O Self surge em nossa consciência como aquela voz interior que sempre nos induz ao progresso, nunca irá compactuar com o desânimo, a covardia, a baixa estima, o vitimismo, enfim, nunca aceitará que deixemos nossas armas caírem no chão, como aconteceu com o arco de Arjuna. Não aceitará a condição escrava nas zonas ilusórias de conforto em que nos colocamos. O self é o maior aliado que podemos ter na conquista do nosso Reino Interior. O Reino de Deus de Jesus seria esse reino reconquistado. Seria a coroação que viria após a grande batalha, a batalha contra o exército dos nossos medos e ilusões. Jesus também foi bastante taxativo ao dizer que não veio trazer a paz, veio trazer a espada, ou seja, também mostrou a necessidade de lutarmos pela nossa transformação. Tudo isso nos leva a seguinte conclusão: cuidado, se as coisas estiverem confortáveis, significa que você está preso, significa que a sua condição é de escravidão e um dia terás que enfrentar os desconfortos e tribulações de suas lutas pessoais, pois existe uma dinâmica evolutiva no Universo que não admite a estagnação.


Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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