quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Plenitude



O caminho da plenitude passa pela iluminação da própria sombra. Para nos iluminarmos temos que ter consciência plena do que existe em nós, isto significa, em um primeiro momento nos conhecermos para poder nos aceitarmos. Uma frase de Jung define bem essa questão: “Prefiro ser inteiro a ser bom”. Muito bem, ser inteiro, portanto, tornou-se o grande desafio da humanidade no limiar desse novo milênio. Graças a mecanismos de fuga, a tendências que trazemos em negar a própria natureza, ao fato absurdo de nos envergonharmos do que somos, influenciados pelos paradigmas vigentes, e principalmente, nos apegarmos a uma máscara transitória (ego) que lustramos e envernizamos, encontramos muitas dificuldades para alcançarmos a plenitude.

Ao virarmos as costas para todo esse material psíquico “desagradável”, estamos apenas fortalecendo-o, pois, o simples fato de não aceitá-lo não significa que ele deixará de existir. Como vimos anteriormente, todo esse material sobrevive graças ao seu conteúdo afetivo e se articula em busca de um caminho para expressar-se. Nosso Self expele tudo aquilo que não coaduna com a sua dinâmica evolutiva, portanto, estaremos sofrendo o desconforto do assédio constante dessas energias, uma vez que o corpo e a consciência são os leitos naturais por onde deságuam esses elementos.

Não existem fórmulas mágicas para o nosso progresso espiritual, não há a menor possibilidade de nos iluminarmos se não levarmos luz aos rincões trevosos da nossa alma, onde encontra-se escondido todo esse arcabouço psíquico que insistimos em negar. Precisamos ouvir, dialogar, negociar com todos esses conteúdos dissociados que nos atormentam, afim de nos ajustarmos conosco mesmos, alinharmos todas essa partes desarmônicas, colocarmos todos esses complexos autônomos do inconsciente dentro do mesmo objetivo.

Estamos bastante familiarizados com a ideia distorcida de que o simples fato de negarmos a nossa vontade irá ajudar a nos livrarmos de futuros assédios e tentações. Por exemplo, se existe um lado promíscuo em nossa contextura espiritual, é ilusão pensarmos que podemos amputá-lo com orientações religiosas ou negá-lo com a indiferença. Tudo que podemos fazer, como explica a escritora e psicóloga Debbie Ford em seu livro “Encontre o efeito sombra em sua vida” é empurrá-lo para o inconsciente, como se estivéssemos em uma piscina e afundássemos uma bola embaixo d’agua, no momento em que nos distraíssemos, ela emergiria com toda a violência à superfície e atingiria a nossa face. Enquanto fugirmos desse enfrentamento, teremos de lidar com os mecanismos de ajuste do Universo e o único meio que ele utiliza para nos pressionar é a dor. Jesus recomendou que nos tornássemos verdadeiros buscadores - “batei e abrir-se-vos-a” - não podemos, portanto, esmorecer. Não podemos nos esquecer daquilo que, também, foi alertado por ele: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido", parece claro que nosso amado Mestre nos ensina que é inútil resistirmos ao diálogo conosco mesmos, pois nossos complexos irão insistir constantemente nessa interlocução, é preciso sentir, assumir, aceitar, dialogar com todos esses conteúdos energéticos que negamos, elementos que clamam por ser ouvidos, que buscam ser aceitos e merecem ser ajudados, para que possam alcançar a luz, desta forma, teríamos todas as condições de transcendê-los, afim de evitarmos essa constante perda energética que traz como consequência a perde de imunidade e o desequilíbrio. Esse é o caminho para a conquista da plenitude tão propalada.


Podemos citar, também, do gato que virou donzela na fábula de Esopo: estando sentada, de forma bastante recatada, à mesa, a donzela não conseguiu resistir ao perceber um rato que passava e deu vazão a sua verdadeira natureza, saltando em sua direção. Por mais que possamos nos revestir de máscaras, nossa sombra não deixará de romper os diques criados pelos medos que arquitetam cuidadosos sistemas de defesa, portanto, tudo que podemos afirmar, de forma inequívoca, é que onde quer que estejamos essa sombra nos acompanhará e estará orbitando em nossa consciência, em busca de aceitação.

Como já dissemos anteriormente, há diferentes níveis de conteúdos dissociados em nossa consciência e alguns apresentam estados patológicos por conta do expressivo conteúdo afetivo. Negar ou fugir desse encontro, evitando o diálogo consigo mesmo, anestesiando a própria consciência com as ilusões do mundo não será o mais recomendável.

No livro o médico e o monstro encontramos um estranho relacionamento entre duas partes de uma mesma consciência cindida, duas personalidades absolutamente contrárias no mesmo ambiente psíquico e o que e nos ensina o romance é que o protagonista, Dr. Jekyll, buscou arduamente desenvolver uma fórmula para trazer esse monstro à superfície, queria permitir que ele se expressasse, pois já sabia de sua existência, portanto, malgrado todos os estereótipos de um ficção como essa, não podemos deixar de tirar algumas lições importantes, principalmente no que tange à necessidade de nos assumirmos e nos ajustarmos com tudo que busca expressar-se em nosso ser, desta forma, introduzirmos os elementos educativos no sentido de transformarmos nossa natureza para melhor, em busca da plenitude.




Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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