Sensação, emoção e sentimento



Vivemos em um mundo estranho, heterogêneo e cheio de contradições, dividindo oxigênio com expressões humanas que estão em diferentes níveis de moralidade, inteligência e consciência; ladeados por pessoas que apresentam virtudes e deficiências de toda ordem. 
Essa realidade nos induz a questionamentos constantes: por quê esse tipo de convivência forçada com os mais diferentes níveis evolutivos? Por que pessoas tão refinadas, educadas, inteligentes e fraternas frequentam a mesma esfera de outras que lhe são o oposto? Como aceitar tamanha distorção? 
Sabemos que dentre as Leis Naturais, muito bem postuladas no “Livro dos Espíritos”, existe a Lei de Igualdade e que no estudo aprofundado de seus mecanismos encontraremos posicionamentos bastante elucidativos para todas essas questões. A Lei explica que em nosso mundo, Espíritos em condições evolutivas diferentes, convivem, um ao lado do outro, para o avanço mutuo, desta forma, os mais atrasados terão exemplos e referências para progredirem, enquanto que os mais adiantados encontrarão boas oportunidades de continuarem progredindo espiritualmente através das oportunidades que a experiência mundana com as mais variadas formas de misérias espirituais oferece. 
A diversidade de aptidões facilita o desenvolvimento da solidariedade entre todos, pois aquilo que um não faz o outro faz. Cada um, fazendo uso de suas habilidades, se torna parte de um orquestra e no final, todos participam do mesmo concerto, executando, cada um, o seu instrumento. É preciso entendermos que a vida se articula de forma harmoniosa, sob regras que não são transgredíveis, portanto, é necessário mantermos os nossos instrumentos afinados. 
Tudo isso indica que uma Inteligência Maior está atuando no desenvolvimento das espécies, é o grande Maestro que rege o Universo, desde o átomo até o Arcanjo, como se fosse um motor primordial (Aristóteles), por isso, todos os conflitos entre os corpos acabam traduzindo objetivos bem definidos, tudo em prol de uma Lei Maior: a Lei de Evolução. 
Notamos uma evidente diferença entre o homens quando se trata de analisarmos as condições emocionais heterogêneas que eles apresentam, cada um reagindo de forma diferente, demonstrando que a vida se articula de forma subjetiva. Como poderíamos, por exemplo, explicar reações tão diferentes entre os homens quando expostos a problemas que são absolutamente similares? Por que alguns conseguem reagir com serenidade diante de questões em que outros se descabelam? Não é preciso muito esforço para percebermos que somos totalmente diferentes, muito menos notarmos que ainda apresentamos instintos agressivos que nos vinculam à um estágio primitivo, animalesco, que não corresponde ao nível racional já alcançado em nossos dias. 
Muitas vezes nossas reações são totalmente desmedidas e absolutamente desproporcionais, como se estivéssemos sob regência de outras forças e é nesse contexto que surge a ideia do mal. Situações específicas despertam em nós uma espécie de alter ego antropoide, como se o Bruce Banner do nosso dia-a-dia sofresse uma alternância e cedesse espaço para uma outra personalidade, muito mais agressiva e inconsequente; como se, de fato, irrompesse um Hulk em nossa consciência todas as vezes que houvesse condições favoráveis. Não podemos negar que mesmo nessas situações limítrofes, uma espécie de expectador continua presente em nosso íntimo, assistindo e desaprovando completamente nossas reações e ações. Essa parte da nossa consciência, que assiste aos destemperos, não é ninguém menos que o nosso Self. É justamente ali que estão escritas as Leis Naturais, os Estatutos Divinos, pois, na verdade já trazemos de forma embrionária as noções do que é adequado ou inadequado para nós e o sofrimento surge, justamente por desconsiderarmos esses preceitos reguladores em nossas vidas. 
O maior objetivo da existência, portanto, é o despertar dessa Consciência Divina reguladora e, parece claro que ela está condicionada ao processo de maturação emocional, espiritual e psíquica de cada um. Enquanto isso, este hóspede ilustre, vive apenas como um expectador distante, muitas vezes, em sono evolutivo. 
Tudo isso nos convida a pensarmos com vagar, pois não podemos negar que somos muito mais complexos do que imaginávamos. Quantas dores morais nos vitimaram, justamente por não conseguirmos ter uma gestão adequada de nossas emoções? Esta provado que os erros, uma vez cometidos, deixam marcas que ficam registradas na alma e fazem com que nossa vida se apresente em constantes espetáculos de auto flagelamento, pois não é novidade que buscamos meios de nos punirmos para nos ajustarmos com a própria consciência; desta forma, essas ocorrências desagradáveis transformam o ser humano em seu maior inimigo, ou seja, somos a causa dos conflitos e dos transtornos que nos assolam, simplesmente por transportarmos uma carga de culpas que poderia ser aliviada com o auto-perdão, pois, não sendo desta forma, apenas através de boas ações ou de muito sofrimento essa carga poderia ser suavizada. 
A verdade é que nunca consideramos o fato de que os erros do passado, fruto de reações ensandecidas que denunciaram um total descontrole nosso, eram resultado das condições rudimentares que apresentávamos, tanto no aspecto emocional quanto no consciencial, portanto, agimos daquela forma em função do entendimento que dispúnhamos. Caímos, desde então, nas armadilhas da baixa auto-estima, principalmente quando, através da própria convivência em sociedade, passamos a ter referências mais elevadas, exemplos de pessoas que se mantém equilibradas diante de situações equivalentes.
É importante considerarmos justamente o nível de conquistas no campo emocional de cada um, uma vez que nem todos encontram recursos para lidar com situações fronteiriças de maneira equilibrada, por isso, os mais imaturos, acionam instintos primitivos inconscientemente, como mecanismos de defesa, enquanto que os mais adiantados nesse aspecto, conseguem manter o equilíbrio e a serenidade.Está claro, portanto, que uma das Leis Naturais mais importantes que regulamentam o nosso Universo é justamente a Lei de Sociedade, pois ela existe para proporcionar ao homem condições de desenvolvimento através do convívio com seus iguais. Por mais recursos que possamos ter, sempre nos faltará algo que encontraremos no outro e o objetivo é que possamos aprender, uns com os outros, através dos exemplos alheios. Partindo desse pressuposto, fica mais fácil entendermos que não podemos ser tão implacáveis com os nossos erros, teremos todas as condições de nos perdoarmos quando nos descontrolarmos e acionarmos o pior de nossa natureza. No entanto, o fato de termos condições evolutivas distintas e conquistas no campo moral e consciencial bem diferentes, não significa que podemos aceitar impassivelmente nossos estragos, é preciso agir no desenvolvimento de uma base emocional menos vulnerável para nos defendermos de futuros desatinos. 
Todas as vezes que sentirmos a ressaca moral provocada por nosso descontrole é sinal de que o comportamento adotado já não é o mais adequado e que as Leis Divinas começam a nortear nossas escolhas com maior intensidade. 
O erros cometidos nessa condição, denunciam, portanto, que estamos agindo de forma arcaica, incompatível com as alternativas que já dispomos para enfrentar as mais distintas situações, por isso a dor e a angústia surgem, com uma intensidade cada vez maior, como resultado precípuo do nosso destemperamento, principalmente através do remorso e da culpa. Em alguns casos, é evidente que, ainda assim, os efeitos indesejáveis dos atos cometidos estarão condicionados ao nível de consciência alcançado, pois há aqueles que não obtiveram nenhum entendimento acerca dos valores elevados da vida e vivem sob a regência da própria ignorância e insensatez e para eles, os efeitos serão outros, considerando que existem atenuantes para a condição moral e consciencial de cada um. 
Lembramos, ainda assim, aos mais desprovidos de entendimento que, apesar de gozarem de uma certa complacência do Universo, trazem as Leis Naturais escritas na própria consciência e, de certa forma, também sofrerão quando contrariarem os influxos da própria essência. A evolução do ser humano se processa a partir do conhecimento e ele mesmo busca o caminho do ajuste com Deus, não há nem nunca haverá um transcendente punitivo, alguém para nos impor sofrimento em função de nossos erros, seremos, sempre nós mesmos os artífices de nossas dificuldades. A ideia antropomórfica de um Deus pai não atende mais às demandas deste atual estágio de consciência da humanidade.

Muitas vezes, perdemos a razão e agimos de forma cega, totalmente incapacitados de gerir as forças que expressamos. De forma, quase sempre, circunstancial, permitimos que o pior de nossa natureza venha a superfície e damos vazão àquilo que estava soterrado em nossa sombra. 
Essa base instintiva que nos acompanha e manifesta-se de forma, quase sempre incontrolável, foi elaborada nos períodos em que vivíamos sob a égide das sensações, em franco desenvolvimento dos sentidos. Seguimos em nosso trânsito evolutivo catalogando no arcabouço da alma os mais diferentes tipos de experiências e condensamos um substrato “energético” que amalgamou-se em nossa estrutura espiritual e que passou a servir de referencial para o nosso desenvolvimento. 
Tudo nos leva a crer tratar-se de uma força elementar que irá nos conduzir em direção ao porvir. Sob o império das sensações, aos poucos, através de um refinamento que apenas a noite dos tempos foi capaz de promover, começamos a destilar emoções, desde as mais prazerosas até as indesejáveis. Nossa consciência passou a orientar-se por essa bússola, seguimos norteados pelas emoções de prazer e fugimos daquelas que representassem algum tipo de desconforto, assim como diabo da cruz, desta forma, evitamos as emoções do sofrimento. 
Esse processo de classificação que tinha por base assimilar aquilo que fosse prazeroso e repelir aquilo que provocasse dor, resultou na criação do nosso ego. Foi o momento em que passamos a nos orientar pelas próprias escolhas, fase de nossa evolução que começamos a expressar um nível maior de individualidade. 
As mitologias arcaicas tratam essa fase como a expulsão do paraíso, justamente, por referir-se ao instante em que desenvolvemos a razão. Através de um nível maior de individualidade alcançada pelo desenvolvimento deste centro organizador dos nossos processos psíquicos, começamos a virar as costas paras Deus, nos desligamos da nossa fonte e passamos as nos orientar pelas emoções. Éramos parte de algo muito maior e poderoso, estávamos integrados ao Universo, pois nos alinhávamos de forma orgânica com o ecossistema e hoje, isolados em nosso mundo de ilusões, vitimados por uma falsa individualidade, vivemos em busca de uma religação, daí o termo religião, que vem do Latim “religare”.É da natureza humana fugir da dor, evitar o desconforto, permanecer impassível e confundir paz com inércia. A falta de enfrentamento das mais diversas experiências emocionais resultou na construção de um caráter fraco, vulnerável, sem a menor resiliência, por isso surgem as guerras e convulsões sociais. Desde a antiguidade percebemos uma sucessão de ações destruidoras entre os povos. Um período trevoso, conhecido com a Era de Ferro (Kali Yuga) nas tradições orientais, parece representar muito bem essa era. Não podemos deixar de reconhecer que tudo isso foi necessário para o desenvolvimento humano. O homem foi inserido em um processo de lutas constantes para o seu desenvolvimento, como no exemplo do herói Ulisses em sua odisseia, lutando para voltar a sua Ítaca. 
Assim Como o herói do poema de Homero, fomos obrigados a passar por dificuldades cada vez maiores para retornarmos ao nosso lar e aquela zona de conforto em que nos colocávamos ruiu-se e deu lugar a sucessivos desafios. Com níveis de consciência mais razoáveis e buscando um aprofundamento nesse diálogo com o Universo, passamos a compreender os objetivos da vida, desta forma, passamos a enfrentar os desconfortos do movimento e das mudanças e deixamos o Império das emoções para entrarmos na estágio dos sentimentos.
Os sentimentos não são nada mais do que um refinamento dessas emoções, pois estão imantados de significados filosóficos, moldados dentro de parâmetros específicos, como se fossem um produto acabado, resultado da transformação de todas as matérias-primas anteriores. Os sentimentos, portanto, seriam as nossas virtudes, sendo elas a humildade, a confiança, a alegria, a coragem, a perseverança, a serenidade, a renúncia, entre outras. Dentre todos os sentimentos, destaca-se o amor, como o Graal de nossa espécie.
O escopo da existência é o amor, estamos aqui para desenvolvermos a nossa capacidade de amar. Se Deus é amor como nos ensina João (Jo 1,8), significa que somos amor também, sendo dele criaturas. O amor faz parte da essência do nosso ser, não é preciso aprender a amar, precisamos apenas manifestar a própria essência, livrarmo-nos dos empecilhos que nos impedem de expressar nossa divindade e estes empecilhos podem ser comparados ao Véu de Maia hindu, uma nuvem de ilusões que nos prendem em uma hipnose constante, como se fôssemos os lotófagos do mesmo, já citado, poema épico de Homero.
O atual estágio evolutivo da humanidade ainda expõe um claro predomínio do campo emocional. Nossas ações refletem uma clara influência das emoções, desta forma, confundimos paixão com amor, baixa auto-estima com humildade, piedade com bondade, agressividade com força e assim por diante. Não é surpresa que agimos movidos por combustíveis emocionais e que marcamos a nossa presença no mundo com atos irrefletidos, conduzidos por emoções que denunciam nossa condição impressionável. 
Vemos que a vida é um processo e que o mundo está inserido em uma dinâmica de aprendizagem. Através da dor e das dificuldades o homem desenvolve condições de expandir a consciência para não viver mais sob o domínio das emoções. O relacionamento entre irmãos caminha para algo maior, sem as tintas do desespero e da irracionalidade emocional, com valores elevados, onde poderemos nos orientar pela razão e desfrutar de um entendimento sistêmico, integrativo, muito mais abrangentes, onde as emoções pesadas como piedade, ódio, paixão, revolta, indignação, darão lugar a seu tempo a sentimentos de compreensão, perdão, amor, aceitação e humildade. Algumas pessoas são tratadas como insensíveis, indiferentes, frias, justamente por já apresentarem um progresso no terreno dos sentimentos e da razão, infelizmente, destoam daquilo que entendemos por “normalidade”, pois o normal é ser escravo das emoções. 
É inaceitável não reagir diante de ofensas ou agressões, é inaceitável não carregar a cruz do outro, é inaceitável, não controlar os filhos e entes queridos, é inaceitável não corrigir a falhas alheias a partir de seus modelos de conduta, é inaceitável não lutar contra o “mal”.Há muitos falsos cristos à solta, pregando com extrema facilidade, pois revestem suas palavras com uma expressiva carga emocional. Conduzem rebanhos com princípios fundamentalistas, conseguindo uma perfeita sintonia com o campo emocional beligerante de suas ovelhas, atendem às inclinações agressivas e primitivas em que hibernam e as transformam em apaixonadas militantes de suas causas. Quase sempre apresentam soluções mágicas que passam pela absoluta subjugação aos postulados escravocratas de suas doutrinas enfermiças, pregam interpretações distorcidas das escrituras que se articulam na realização de seus interesses de poder e arrecadam sem o menor pudor os recursos que precisam para atingir os seus objetivos escusos. São cegos guiando cegos, lobos em peles de cordeiros, falsos cristos e falsos profetas.No entanto se existe a oferta, existe a demanda. Se Deus permite essas distorções, talvez seja pelo fato destes devotados seguidores pertencerem a uma parcela da humanidade que ainda não alcançou um entendimento mais profundo acerca da Lógica Universal. Seguem em processo de gestação de uma consciência que não conseguiu ainda ultrapassar as fronteiras que foram delimitadas por postulados inflexíveis de alguma organização religiosa ou pelas letras mortas de suas escrituras, desta forma, não aceitam princípios como a reencarnação, ação e reação, amor e caridade, evolução, etc.
Entretanto, não seria coerente fazermos julgamentos apressados, isto também estaria denunciando uma falta de visão sistêmica e, principalmente, expressaria uma falha em nossa gestão emocional. Queremos deixar claro que apenas tratamos a questão como um fenômeno que merece ser discutido face ao caleidoscópio atual. A razão nos mostra que nada existe sem uma necessidade, portanto, as instituições religiosas com discursos rígidos e intolerantes apontam para panoramas que se ajustam às consciências de seus respectivos rebanhos. Não podemos deixar de admitir que mesmo dentro destes grupos fanáticos, simpatizantes e fiéis seguidores encontram meios de conter seus impulsos e inclinações viciosas. 
Como estudamos anteriormente, estamos alcançando novos patamares de entendimento, portanto, não podemos simplesmente rotular o bem e o mal de forma dissociada da própria natureza.Confúcio nos ensina: “Até que o sol brilhe, acendamos uma vela na escuridão”. É inegável o poder transformador de algumas seitas, mesmo as mais controversas, entretanto, assim como a vela desse belo aforismo, esses períodos de cegueira espiritual devem ser tratados como estágios transitórios de despertar da consciência e aqueles que se aproveitam da falta de recursos de suas vítimas, não deixarão de prestar contas ao tribunal da própria consciência.

“Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” 
(Mt 18,7)


Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br


















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