sexta-feira, 19 de julho de 2019

Ah, se eu pudesse voltar o tempo...



Quem nunca disse isso? Quem, em um momento de raiva -seja de algo, de alguém ou de si mesmo- nunca quis que o tempo voltasse para que pudesse, com a consciência que tem hoje, passar novamente pela experiência frustrante que segue viva em sua memória, para fazê-la de forma diferente?

Pois é, parece maluquice, mas isso é possível! 

Voltar ao passado? Não, isso não! Mas mudar o significado que esses eventos têm dentro de gente, isso sim é realizável. 

Ninguém é capaz de lembrar-se do tempo em que ficou parado em um farol, até que ele se abrisse, em uma rua qualquer, há dez anos; mas traz vivo na memória momentos em que foi humilhado, traído, violentado, assim por diante. 

Mesmo que o tempo de cada experiência tenha sido o mesmo, só guardamos aquilo que tem importância e significado, pois esses momentos existem dentro da gente carregados de combustíveis emocionais e são esses elementos que os mantêm vivos. A raiva ou a revolta que destilamos ao pensarmos neles seguem envenenando nossa estrutura psíquica e emocional, como se a coisa em si continuasse acontecendo. Na verdade, o passado está vivo aqui e agora, retroalimentado por emoções. 

Mudar o passado, portanto, é aliviar a carga afetiva que reveste esses fatos e isso só é possível através do perdão. Perdoar é mudar o significado negativo que um conteúdo qualquer, em nossa memória, possa ter. É transformar algo imantado de importância em informações apenas, informações que não se revestem mais de significados pesados. O perdão, portanto, é o solvente mais poderoso do Universo. É importante salientar que tão importante quando perdoar os outros é aplicar esse mesmo perdão para si. 

A culpa, o remorso, a indignação, a revolta, enfim, todos os sentimentos que essas lembranças nos provocam, deixarão de provocar. Serão apenas acontecimentos prosaicos que não nos afetarão mais, como o tempo parado em um farol, em uma rua qualquer, há muito tempo. 

O caráter de um indivíduo se constrói a partir da influência de todo esse material. Tudo aquilo que não tratamos com leveza, aceitação e compreensão, irá acumular-se como um lixo emocional que irá determinar as nossas escolhas futuras. 

Nossas ações são motivadas por emoções que não foram devidamente dissipadas. Nossas escolhas também. Tudo aquilo que expressamos, de alguma forma, está contaminado pela toxicidade que trazemos na alma. 

São caracteres que estão vivos, formando nossas características e compondo o nosso caráter. Nosso trabalho aqui é dissolver esse material, mudar o significado de tudo aquilo que nos contamina. 

Tratar a experiência com indiferença é mágico, poderoso e profundamente eficaz, tudo isso já ensinavam os filósofos estoicos. 

O próprio Jesus recomendou no Sermão da Montanha: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica. Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames. Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também”. 

Enquanto estivermos intoxicados de lembranças ruins, será impossível agir com esse nível de leveza e desprendimento. Portanto, o nosso trabalho é, e sempre será, uma luta contra si mesmo, no sentido de desconstruir a importância que o passado tem dentro da gente. 

Perdoar é fundamental, mas o perdão é apenas uma ferramenta. Na verdade, estamos aqui para aprendermos a não nos ofendermos. 



Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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