Entregue-se



Autor Paulo Tavarez - paulo.tavarez@cellena.com.br

Enquanto você faz planos, move-se em busca dos seus desejos, sonha com realizações, a vida vai acontecendo, absolutamente alheia a tudo isso.

A Vida acontece enquanto você dorme, enquanto você sonha, enquanto você age, a vida já acontecia, mesmo antes de você existir. Em todas as situações ela permanece a mesma, sempre equilibrada, dentro de um ritmo perfeito, como se fosse um rio. Essa é a Vida! 

Esse rio jamais irá acelerar ou deter o seu fluxo em função dos seus desejos. Entrar em sintonia com ele é alcançar a plenitude. Mas você quer, muitas vezes, traçar o próprio caminho, nadar contra a corrententeza, negar as lições desse grande proponente, prefere a inércia e adora apegar-se a paisagem.

A Vida não está nem um pouco interessada nesse ‘fazedor’ que você tornou-se, nem você deveria estar. A Vida não precisa de você, ela simplesmente É. Ela não precisa preocupar-se com a existência, tudo aquilo que existe deixará de existir, mas isso não se aplica a Vida, pois a Vida simplesmente É, aliás, como diria Parmênides, o que É sempre será e nunca deixará de ser, o que não É nunca será.

Lao Tsé nos ensina a agir pelo não-agir e ele tinha toda razão. Você insiste em ser um  agente, teima em querer mudar o curso do rio, em apressá-lo ou detê-lo e não percebe o tamanho dessa incongruência.

Quando surge um eu separado da Vida, uma saga de sofrimento tem início. É como o filho pródigo que pede sua parte na herança, sai em busca de experiências e percebe frustrado, depois de muito sofrer, o tamanho do equívoco que foi separar-se do Pai.

A Vida é a Casa do Pai, o Reino de Deus, a vida é você, mas você está inconsciente disso, pois criou uma profunda identificação com um falso eu, você vive em outro reino: um reino de morte e escuridão, onde tudo é impermanente.

Esse eu, ou ego,  é um simples cadáver, está morto, sempre esteve, por isso Jesus dizia: “Deixai os mortos enterrarem os seus mortos…”, estava referindo-se àquilo que todos acreditam ser. 

A Vida é  Sat-chit-ananda que quer dizer  "existência, consciência, êxtase”, mas o ego está inconsciente de tudo isso. O ego vive na escuridão, no vazio, como um fugitivo, tentando refugiar-se no prazer, com isso, desenvolve vícios e condicionamentos. Vive como um peixe procurando o oceano, ou melhor, vive como um peixe procurando o próprio peixe.

A Vida é eterna, perfeita, imutável, incontaminável, indestrutível, imensurável e bem-aventurada. Essa é a Verdade que precisa ser alcançada, mas aqueles que conhecem essa Verdade não falam, pois não há palavras para explicá-la, e aqueles que falam com entusiasmo, sem a experiência da graça, simplesmente não a conhecem. 

Essa Vida iluminada representa o seu Verdadeiro Eu, mas você a trata com algo separado de você, como alguma divindade e com isso, cria rituais e métodos devocionais para entrar em contato com ela, acreditando que ela irá ajudá-lo atendendo os seus desejos, mas ela não irá dobrar-se a sua vontade.

Acredite, ela tem outros planos para você. O grande desafio da experiência humana é compreender as proposições da Vida e aceitá-las. É preciso render-se a ela, sair desse campo de batalhas contra a realidade e permitir que a realidade se instale com toda a sua força.

O próprio Jesus dizia ao Pai (Vida): “Seja sempre feita a sua vontade e não a minha”. Ele, como poucos, conhecia Aquele que manda.

O Mestre aceitou a missão de morrer para demonstrar, através de seu exemplo, que devemos aceitar o cálice amargo que, muitas vezes, nos é oferecido.

Entregou-se aos seus algozes como um cordeiro aos lobos. Através desse exemplo, demonstrou estar em um outro estágio de Consciência.

Nesse momento, já não era mais Jesus, tornara-se Cristo. Assim como Sidartha tornou-se Buda ao vencer Mara (ego).

Seja a Vida que existe em ti, apenas seja, deixe o agente de lado e entregue-se.

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