Eu prefiro ser inteiro



No estágio em que estamos, somos controlados pelo medo. Ser um pessoa controlada é visto por todos como uma qualidade. Será? Um homem controlado é a expressão inequívoca de um homem cheio de medos, pois enquanto a sua alma diz uma coisa, a sua mente diz outra. O superego freudiano é isso: uma instância de poder que nos engessa. Ele funciona como um juiz, um padre ou um policial, enfim, um personagem repressor vivendo dentro da gente, na verdade, é um grande manipulador. Somos obrigados a obedecê-lo, pois desconhecemos o nosso poder, desta forma, aceitamos uma rotina de servidão, seguindo os comandos do próprio medo.


Vejo entristecido um cenário que me assombra: jovens e adolescentes disputando os cantos mais escuros de uma festa, apenas para não serem notados; adultos - especialmente as mulheres- com problemas na tireóide por não conseguirem expressar-se; a sociedade conduzida por estatísticas tenebrosas, previsões catastróficas, ao mesmo tempo, imersa na engenharia do consentimento. O mais triste é ver a supervalorização das formas perfeitas, apolíneas, denotando um mundo cinza e sem graça, em detrimento da alegria de ser o que se é.

O medo nos controla, essa é a única verdade, quaisquer outros argumentos contrários não alcançaram a essência dessa realidade. O medo sempre esteve por trás da toda educação e adestramento da humanidade, marcando presença nas doutrinas religiosa e filosóficas. A diferença entre um ser humano e a cadelinha do Piaget é mínima, somos todos conduzidos por reflexos condicionados. Aqueles que conseguem livrar-se dos grilhões do medo são chamados de loucos ou desajustados e tratados com desprezo. É preciso adoecer para fazer parte deste mundo doente, é preciso deixar de ser para pertencer.

Onde estão os hippies? Aqueles que não morreram, ficaram chiques, pois vejo cabeludos gostando de butiques e expressando a mesma rendição ao sistema. O medo, como diria o Psiquiatra cubano Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma. Ele comanda, ainda, as nossas ações e influencia quase todas as nossas escolhas, isso é fato, por isso, ele é o unico inimigo a ser enfrentado.

O grande problema é enfrentar algo que não existe. Sim, meus amigos, o medo não existe, ele é apenas uma ausência, surge com um sentimento negativo que denuncia apenas o vazio. Assim como nos números negativos da matemática, que existem apenas para apontar ausências, o medo aponta o mesmo. Eu posso dar duas maçãs, mas não posso dar menos duas maçãs a ninguém. Com o medo é a mesma coisa, na verdade, ele sinaliza o desconhecido, retrata nossa ignorância, pois ninguém teme aquilo que conhece, teme apenas o que desconhece.

Quanto mais organizado, sistemático, controlado e cuidadoso for o ser humano, mais medroso e manipulado estará se revelando. É preciso viver a vida com leveza, despreocupado com avaliações, aprovações e adequações. Existe, sempre, o caminho do meio, uma trilha de equilíbrio, onde não abrimos mão da prudência e dos bons modos, mas, ao mesmo tempo, abrimos as portas da espontaneidade, da criatividade, da descontração, para que a vida passe a ter um novo colorido. Vejo muita tristeza na alta sociedade e muita alegria na favela.
Parece incrível, mas esse é o retrato desse cenário. Está na hora de sermos, ao mesmo tempo, apolíneos e dionisíacos. As religiões, quase todas, sempre valorizaram a moral e os bons costumes, reforçaram de forma exagerada os aspectos apolíneos do ser humano e demonizaram completamente o lado dionisíaco, com isso, aconteceu uma completa amputação na alma humana, passamos a viver pela metado, suprimindo nossa verdadeira natureza. A psicologia percebeu isso, tanto que o próprio Jung desenvolveu a teoria da individuação, onde os conteúdos do insconsciente, sempre desprezados, foram tratados como um material que precisa ser novamente integrado.

Diza ele: "Eu prefiro ser inteiro a ser bom".



Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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