Investigando as raízes do sofrimento




Autor Paulo Tavarez - paulo.tavarez@cellena.com.br

Buda dizia que o desejo é a raiz do sofrimento. Esse postulado está absolutamente correto, mas qual é a raiz do desejo? O desejo não pode ser a causa primária, uma vez que ele também tem uma causa.

Para darmos início a essa investigação será necessário entendermos porque temos desejos e isso me parece simples: desejamos por não estarmos felizes com o que temos, com o que somos, com o que experimentamos, assim por diante. Ao nos sentirmos angustiados é natural criar desejos e anseios.

O desejo é sempre uma compensação e muitas vezes também, é usado como sedativo, pois o desconforto da alma pode ser neutralizado com o prazer e tudo que desejamos é ter uma vida prazerosa, com isso, ele se torna pai de todos os nossos vícios. Muitas vezes, confundimos isso com a felicidade, sem perceber que na realidade estamos apenas em fuga, fugindo do desconforto que, quase sempre, desconhecemos.

Nesse caso, a raiz do sofrimento não é mais o desejo e sim o desconforto, pois é ele que está criando os desejos.

Muito bem, já descemos mais um degrau, mas não é o suficiente, pois o desconforto também tem uma fonte e para prosseguir nesta investigação nós temos que conhecê-la.

Todo desconforto humano é provocado pelo medo e o medo é um ser camaleônico, capaz de apresentar-se sob diversas formas.

O medo pode aparecer sob o manto da timidez, da vaidade, do orgulho, da ambição, da ansiedade, da carência, enfim, por inúmeros vícios mentais, pois ele é capaz de usar várias máscaras.

O medo é a causa de todo e qualquer desconforto humano, ora, mas qual é a causa do medo? Já se perguntaram? Por que esse gigante da alma é tão poderoso?

Analise bem, ninguém teme aquilo que conhece, nós tememos apenas o que desconhecemos, portanto, achamos a causa do medo: a ignorância. Não parece óbvio que quando compreendemos algo, quando aprendemos como funciona, entendemos qual é a dinâmica de um fenômeno, o medo desaparece, pura e simplesmente?

A raiz do sofrimento, a partir dessa investigação, descendo mais um degrau, portanto, não é mais o medo e sim a ignorância. Somos ignorantes da nossa verdadeira natureza, por isso sofremos, por isso vivemos uma vida de escravidão dos desejos.

O homem é conduzido para o abismo através dos próprios desejos, hipnotizado pelo prazer, preso nas sensações grosseiras da matéria. Esse é o seu ponto fraco e é partir dessa fragilidade é que torna-se manipulável. Para trazer um animal até a armadilha, precisamos seduzi-lo com coisas que ele gosta, simples assim.

Prazer e dor são faces de uma mesma moeda; tudo, na realidade, é dor. Até mesmo para sentir prazer, o indivíduo precisa ser envolvido por sensações.

A bebida precisa arder, a fumaça do cigarro que entra a 80 ºC no pulmão, precisa queimar para dar prazer, a fricção no ato sexual precisa acontecer, tudo se realiza a partir das sensações provocadas por algum tipo de agressão. Prazer e dor, eis o binômio.

O que seria a vida sem o prazer? Seria uma vida de bem-estar. Beber te dá prazer, não beber te traz um bem-estar. Fumar te dá prazer, não fumar te traz um bem-estar, assim por diante. O caminho da realização é sempre o caminho da renúncia. O grande problema da alma humana, portanto, é a ignorância. Ignorância é ausência de luz, de conhecimento, enquanto não desenvolvermos a nossa consciência estaremos sendo conduzidos por nossos desejos.

Entendem agora porque foi dito: “Conhecerás a Verdade e ela vos libertará”?

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