O inferno não são os outros!




O filósofo existencialista Jean Paul Sartre, em uma de suas peças de teatro chamada Entre quatro paredes (Huis Clos no original francês), usou uma frase que retrata a intersubjetividade das relações humanas: “O inferno são os outros”.

Para um existencialista que prega a liberdade de forma radical, todos os componentes externos, sejam eles pessoas ou coisas, são tratados como obstáculos para a conquista dessa condição.

Ouso discordar desse grande pensador, pois não considero que o outro seja o responsável por nossas infelicidades e frustrações. O inferno não está do lado de fora e, sim, do lado de dentro da gente. Infelizmente, o êxito no método científico está em dar uma verdade provisória útil às coisas e, talvez, por esse motivo, essa expressão tenha ganhado tanta aderência no pensamento ocidental; justamente, por vir ao encontro das demandas do homem comum, aquele que busca sempre um responsável pelos próprios infortúnios.

Na verdade, tudo que existe ao nosso redor, tudo aquilo com que nos relacionamos, são meras informações, nada mais, quem transforma essas informações em problema somos nós mesmos, justamente quando qualificamos os eventos externos com os nossos componentes internos. Somos nós que damos importância ou significado para um acontecimento, seja de forma positiva, negativa ou neutra.

Culpar o vizinho pela nossa falta de tolerância ao latido do seu cachorro, culpar a esposa por nossa falta de flexibilidade no relacionamento, culpar os filhos pelos medos que nos acompanham e pedem que tenhamos um controle excessivo sobre eles etc., são alguns exemplos de vulnerabilidades comuns que ainda apresentamos.

O inferno e o céu são construtos mentais, nada mais, estão ligados às nossas crenças e valores, enfim, todas as nossas reações internas ou externas sofrem os imperativos de um programa pronto, pessoal e específico, criado a partir das tradições culturais, modelos educacionais e religiosos, mídia, etc. Culpar o outro pelas nossa dificuldades é uma sandice, não se pode mudar o mundo ou as pessoas, apenas desenvolver recursos internos para lidar com os fenômenos externos de uma forma mais sadia e equilibrada.

O homem se ofende por que é orgulhoso, incomoda-se por que é rígido, amedronta-se por que é ignorante, enfim, todas as suas reações denunciam os seus pontos fracos. Acuado, tenta responsabilizar os outros pelo inferno que vive dentro de si.

O princípio da responsabilidade deve estar sendo observado por todo aquele que busca uma melhor condição mental e emocional. Qualquer processo terapêutico sério deverá fazer com que o analisando faça esse tipo de inflexão, não há a menor possibilidade de encontrar a cura ou o equilíbrio interior e superar as suas mazelas, olhando apenas pela janela.

Do lado de fora só existem informações, todo o problema acontece dentro e alcançar essa compreensão básica da dinâmica que envolve a condição humana é o primeiro passo para a transformação.

Toda rejeição, toda repugnância, toda incompatibilidade apresentada contra qualquer informação externa, são reações que surgem no ser em função de todo um material psíquico acumulado no inconsciente a espera de ressignificação, precisa ser olhado e despotencializado.

Por esse motivo nos relacionamos, vivemos em comunidade, nos organizamos em grupo, pois uma Lei Universal nos coloca, justamente no lugar em que precisamos estar e com as pessoas que precisamos conviver para lidarmos com aquilo que está oculto em nossa sombra.

O inferno não são os outros, na verdade, nem nós mesmos, embora pareça impossível, o poeta baiano estava certo.

"Tudo é divino, tudo é maravilhoso".




Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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