O que é mente? O que é Espírito?



Para nós, ocidentais, a mente se confunde com Espírito. A mente é tratada como uma faculdade do Espírito, um desdobramento da nossa essência, um extensão do Atman, mas será que são a mesma coisa? O que é mente afinal? E o Espírito? Como distinguir um do outro?

O Espírito não pode ser confundido com algo tão imperfeito quanto a mente, se entendermos que a nossa essência espiritual é imperfeita, estaremos contrariando a lógica, pois somos, em que pese os preceitos judaico-cristãos, filhos de Deus, portanto, deuses, e como deuses não poderíamos ser imperfeitos, pois a Perfeição Absoluta do Criador não produziria nada que não expressasse essa mesma perfeição. Da mesma forma, deixando o creacionismo ocidental de lado e buscando referências no Vedanta ou em outras escolas orientais, somos emanações de Deus, portando, também não poderíamos, da mesma forma, sermos imperfeitos. Nossa imperfeição não está na essência, mas na existência, ou seja, não está no Espírito, está na mente, a mente não existe sem o Espírito, mas o Espírito sobrevive sem a mente. O Espírito é Consciência Pura, pois é eterno, incontaminável, indestrutível, perfeito, mas a mente não, ela está sujeita a toda sorte de mudanças e transformações. 

A mente é um instrumento poderoso, capaz de produzir ‘realidades’, tem o poder de aprisionar a consciência (Espírito) dentro de uma espécie de Matrix, produzindo ambientes que se confundem com a realidade, registrando eventos e criando condicionamentos infinitos, é responsável pela criação dos personagens com os quais nos identificamos, nossas personalidade, com isso, consegue reduzir a grandeza de uma essência, que é divina, à simples condição de réprobos inconsequentes, ou seja, é uma fábrica de ilusões. 

Encontrei no Sermão da Montanha (Mt 6:21) uma recomendação que pode nos ajudar a entender essa diferença. Quando o Mestre Jesus nos diz: ‘Pois onde estiver o seu tesouro, ai estará o seu coração’, na realidade, quer nos mostrar, mesmo que de forma oculta, que existem duas instâncias distintas na complexidade do Ser: as instâncias mental (tesouro) e espiritual (coração).

A mente cria esse tesouro que encarcera o nosso coração, pois para se fortalecer, precisa do nosso apego, precisa nos manter prisioneiros dentro do mundo que ela estiver criando; sem os desejos que são estimulados no campo mental, estaríamos muito mais conscientes da nossa verdadeira natureza, estaríamos livres.

O Espírito, como está escrito, é o coração, aquele que acompanha nossos processos mentais como um expectador e presencia os desvarios da experiência criada pela mente. O Espírito aguarda o nosso retorno, ele é nosso verdadeiro 'Pai', quando Jesus dizia: 'Eu e o Pai somos um..." estava se referindo ao seu estado de plenitude, alcançado a partir da consciência de si. O Espírito observa, monitora e direciona o nosso destino, na verdade, não temos tanto livre arbítrio assim, somos presunçosos ao pensar que estamos no comando. Todas as nossas provações são elaborados por ele, o 'Pai', pois entende as nossas necessidades. Ele é o Atman e o Brahma, está por detrás da cortina de ilusões criada pela mente, mas também interage com a nossa pretensa realidade, pois se comunica através da intuição pura. Todos os nossos insights partem dele.

“O Espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Outra frase que explica – agora de uma outra forma – que existem uma e outra coisa. O Espírito está pronto porque é perfeito, a carne (representação da mente) é fraca por que precisa despertar.

Todas as nossas criações mentais nos prendem dentro de ambientes astrais, desde as mais nobres até as mais infelizes. Todas essas energias nos acompanham no além-túmulo, criando sintonias com frequências similares, nos prendem dentro de um círculo de renascimento e morte (Roda de Samsara) que irá se perpetuar até que possamos acordar. Não é o Espírito que sofre nos mundos umbralinos, mas a mente. Nosso sofrimento é mental, o Espírito aguarda o nosso despertar, ele apenas espera que nos desvencilhemos de todos esses novelos complicados que foram provocados pelo nosso apego ao ‘tesouro’ que nos aprisiona.

Nos ‘trabalhos espirituais’ não existe tratamento para o Espírito, existe sim, um tratamento para a mente, são as criações mentais que nos atormentam. Os conhecidos obsessores não são nada mais do que conteúdos mentais com os quais nos envolvemos, contaminações psíquicas com estruturas energéticas que se ajustam, através de sintonias enfermas, com o nosso campo psíquico. Não podemos continuar chamando de espíritos aquilo que é mente.

O Espírito é consciência pura, demônios ou entidades espirituais são personagens criados por esse aparelho fantástico que é a nossa mente. 

As religiões são grandes aliadas da civilização, embora tratem de forma mitológica essa questão, todas elas servem de grande auxílio para trazerem equilíbrio ao psiquismo humano. As palavras pouco importam, o nome que quer se dar a isso ou aquilo é irrelevante, o que importa é atuar na desconstrução de todos os conteúdos problemáticos que assolam a humanidade. Mesmo que tenham um entendimento diferente do aparelho ontológico (Ser), apresentam um caminho eficaz para elevar a alma (mente) à condição de Espírito através de doutrinas que pregam a renúncia e o desapego. 

Não quero propor mudanças de crenças, pois sei que elas acontecerão no momento certo, quero apenas, através deste artigo, mostrar que Espírito é Espírito e mente é mente, mesmo que para muitos, acreditar-se imperfeito, pecador ou fraco, seguindo doutrinas filosóficas ou religiosas quaisquer, seja a única verdade.


Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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