sexta-feira, 19 de julho de 2019

Perder a vida para encontrá-la






“Aquele que ama a sua vida, a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida neste mundo, a conservará para a vida eterna” (grifo meu). João 12:25

Encontramos, no Evangelho de João, essa frase que, embora pareça inverossímil, é rica em significados. 

Por mais que nos pareça contraditória e apesar dos seu caráter iniciático, essa frase é um convite a reflexões profundas, especialmente quando ele afirma que não devemos amar a vida tal qual a conhecemos: a vida nesse mundo.

Sei que para muitos é difícil concordar com esse enunciado, pois faz parte do senso comum desenvolvermos amor pela vida, buscarmos a realização, alcançarmos a plenitude da existência através das conquistas sonhadas, assim por diante. Desta forma, como, então, poderíamos odiar a vida? 

Para ter uma compreensão daquilo que o Mestre queria nos propor, teremos que nos despir de preconceitos, crenças, certezas, enfim, de todo um programa que desenvolvemos em nossa mente e que nos impede de acessarmos a essência desses ensinamentos sem adulterá-los com ‘achismos’.
Não se pode colocar vinhos novos em odres velhos, nem colocar remendo novo em roupa velha, isso é fato.
Portanto, para entendermos a Dinâmica Universal, presente na boa nova ensinada pelo Galileu, teremos que nos livrar de todo um conhecimento velho e anacrônico que possuímos, pois, na verdade, não sabemos absolutamente nada acerca da Verdade, apenas acreditamos naquilo que as tradições nos revelam. 

A ‘vida’ que desperta tanto interesse por cada um de nós é a vida do corpo e da mente, faz parte de tudo aquilo que podemos perceber através dos sentidos. O que não notamos é que existe algo maior, que estamos identificados apenas com um personagem de uma trama sem graça; um personagem que foi elaborado com a argila dos nossos desejos e necessidades, portanto, trata-se da identidade criada com um falso eu ou um simples retrato de algo artificial que precisa ser destruído. 

Esse falso eu, também conhecido como ego, com ou sem o nosso consentimento, será destruído pelas ações do Universo, pois tudo conspira para promover uma desidentificação da Consciência com a experiência corpo-mente. Toda a Natureza se articula a favor do nosso despertar e enquanto estivermos tentando realizar esse personagem, sonhando com pódios, reverências e conquistas vãs, estaremos no cárcere dos nossos desejos, escravos de necessidades, presos na Roda de Samsara, ajustando e desajustando, o tempo todo, o próprio psiquismo. 

Ainda estamos em um estágio primitivo de Consciência, presos às ilusões de um playground, aprendendo a lidar com emoções, sensações, sentimentos e totalmente vulneráveis às investidas da mente. 

O ego, na realidade, é apenas uma ideia que sofre um reforço constante das nossas crenças, ou seja, não é absolutamente nada. Existe apenas como um conceito, portanto, estamos identificados mentalmente com algo que só existe de forma simbólica, semiótica, nada além de uma crença. Procure o ego e ele desaparece, simples assim. 

Então, o que o ensinamento do Nazareno propõe é destruirmos essa crença e, desta forma, deixarmos de nos identificar com essa ideia, deixarmos de acreditar nesse conceito e abrirmos espaço para o Ser Real, a Consciência Pura, o Reino de Deus, a Vida Eterna, perfeita e indestrutível que repousa em nossa essência. É preciso realmente ‘odiar a vida desse mundo’, a vida conceitual, egoica, para que a Vida Eterna, verdadeira, representada pela a nossa Consciência Pura ou pelo nosso Self - usando uma terminologia Junguiana - se manifeste. 

Está cada vez mais claro que o caminho para o nosso despertar é o caminho da desconstrução.



Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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