sexta-feira, 19 de julho de 2019

Quem disse que o lobo é mau?




Atendendo a sugestão de um caro leitor resolvi desenvolver esse tema.

Se existe um lobo mau significa que existem lobos bons, senão, como teríamos uma referência positiva desse animal? 

Percebam o tamanho do equívoco contido nesta reflexão. Será que para o lobo ser bom ele deveria ser vegetariano, dócil, obediente, não deveria querer defender o seu território e teria que submeter-se completamente ao nossos comandos? Será que deveria comportar-se como uma rês que mesmo sabendo que será abatida não usa a sua força para defender-se. Infelizmente, esse é o conceito disseminado: o homem é bom e mal é tudo aquilo que está fora do seu controle, tudo aquilo que não submete-se ao seu comando.

Aprendemos, desde cedo, que o lobo é perverso, pois quer comer a chapeuzinho vermelho e sem perceber, assimilamos através da fábula, que o mal existe e a vida é feita de perigos e ameaças, dessa forma, criamos medos e limitações injustificáveis. Reforçamos, desde muito cedo, a ideia do mal e do perigo que há no mundo.

Como estamos diante de uma nova realidade e bastante crescidinhos, valores e conceitos precisam ser revistos, pois o homem deve avançar, não dá mais para acreditar nos modelos e conceitos dualistas que os 'adultos' insistem em continuar usando em nossa formação, então, que tal fazermos um releitura dessa estória?

Seria o lobo mau ou a Chapeuzinho uma criança displicente, incapaz de entender que os lobos demarcam e defendem os seus territórios? Será que ela pensa que uma escritura de cartório da casa da vovozinha é suficiente para destituir o verdadeiro dono daquele espaço? Será que ao andar pela estrada afora, tão sozinha, ela não sabia dos riscos que corria? Seria o lobo tão mal assim ou a Chapeuzinho que é uma criança lesada? Realmente, está na hora de pensarmos a respeito.

Na verdade, não há nem bom nem mau, nem certo nem errado, o mundo é feito de um binômio que envolve unidade e diversidade e aquele que consegue alcançar um certo grau de desenvolvimento da consciência é capaz de entender que é preciso buscar uma harmonia entre as diferenças. Não estamos aqui para lutar contra o mal estabelecido, nem para conquistar, destruir ou mudar nada, isso é muito patriarcal, estamos aqui para trabalhar a favor da integração, buscando uma harmonia e o mundo oferece os elementos para isso. Temos que integrar a própria sombra, enfrentar os demônios internos e ao nos projetarmos na existência, todas as nossas lutas refletem essa projeção. Aquilo que nos incomoda é nosso, aquilo que nos assusta reflete nossos pontos fracos, não há mal ou bem que esteja fora, mas dentro de cada um de nós. Estamos aqui para aprender a amar, respeitar e conviver de forma pacífica com todos aqueles que estagiam nos mais diferentes níveis evolutivos, essa é a Lei de Sociedade, portanto, uma Lei Natural, está cada vez mais evidente que nos desenvolvemos através daquilo que Spinosa chamava de encontro de corpos, respeitando direitos e diferenças.

Esse tipo de pensamento plantado no inconsciente coletivo levou, por exemplo, o ex presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a dizer que existe no mundo um eixo do mal, um inimigo, tal qual um lobo mal, que precisa ser destruído e aqueles que não estiverem com eles, estarão contra eles. Nunca ouvi nada mais arrogante. É triste ver a que nível chegou esse modelo excludente e nos depararmos com toda a violência imperialista dispensada no desenrolar desta triste história. O mundo viu as consequências daquela novela infeliz, acompanhou o caos que se instalou no Oriente Médio, justamente por partir de premissas equivocadas da realidade, simplesmente pelo fato deles  seguirem modelos e formatações que não servem mais para dar uma orientação saudável a nossa combalida humanidade.

O lobo nunca foi mau, assim como a Chapeuzinho também não representa aquilo que é bom, simplesmente porque o conceito bom e mau é um erro, bom e mau não existe, é insano pensar que apenas os bons podem mover a máquina, o mundo precisa de todos, tudo está encaixado na mesma engrenagem social, cada um é uma peça importante dessa estrutura, portanto, é extremamente perigoso acreditarmos em modelos sectários e polarizados.

Cada ser vivo com sua idiossincrasia vive dentro da própria realidade e enxerga o mundo através dos parâmetros da sua “idade astral”, portanto, aos mais fortes e adiantados cabe a tarefa de ajudar e não a de oprimir e escravizar aqueles que são mais fracos e menos esclarecidos. É preciso muito respeito pelo semelhante, mais do que isso, muito respeito por qualquer ser vivo, entender a natureza de cada um, pois essa velha visão cartesiana, mecanicista e ultrapassada, apenas recrudesce a noção do outro como um objeto. 

O elefante da fábula jamais deveria ter dado uma carona ao escorpião na travessia do rio, ambos vivem dharmas distintos, essa história jamais iria acabar bem. Não se pode culpar o escorpião por picar, faz parte da natureza dele, assim como não se pode impedir o elefante de ser dócil, faz parte também da natureza dos paquidermes, entretanto, é possível através de um entendimento, estabelecer regras de convivência, não misturar elementos, entendermos que precisamos tanto do açúcar quanto do sal.

Quando presenciamos qualquer desgraça, logo procuramos nos posicionar ao lado da vítima, culpando o agressor e rotulando o lado bom e o lado mau, no entanto, o ato de julgar obedece parâmetros extremamente limitados, que não enxergam além do evento em si, nosso julgamento não consegue aceitar verdades que estão muito acima dos condicionamentos humanos, é incapaz de entender que tudo está dentro de uma lógica maior, de ajustes e acertos, ficamos tão cegos que passamos a procurar culpados por todos os lados, até duvidamos da Providência Divina, como se não houvesse ordem no Universo, como se ninguém colhesse aquilo que em um determinado momento plantou.

Estamos vivendo uma época holística, é preciso enxergar o mundo de forma orgânica e integrativa, não podemos continuar nos destruindo sob o guante de uma pretensa superioridade, todos somos um.
Acreditem, lobo mau não existe.


Autor: Paulo Tavarez
   
Terapeuta Holístico, Palestrante, Musico, Instrutor de Yoga, Pesquisador, escritor, nada disso me define.
Eu sou o que Eu sou!

E-mail: paulo.tavarez@cellena.com.br

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